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Erasmo Carlos volta as telas de cinema em "Paraiso Perdido"

quarta-feira, 12 de abril de 2017

/ por Portal Brasileira

Caracterizado como dono de uma boate brega, Erasmo Carlos, 75 anos, sobe as escadas de um casarão no centro de São Paulo para começar o seu último dia de filmagens do longa “Paraíso perdido”. Com um terno preto, camisa brilhante, corrente de ouro e uma flor rosa na lapela, o cantor e compositor é recebido no set pela diretora Monique Gardenberg. José, seu personagem, não tem nada a ver com o Tremendão, roqueiro com fama de mau que se tornou sua persona no auge da Jovem Guarda, em meados dos anos 1960. Ele é um ex-professor de literatura que vê sua mulher desaparecer durante a ditadura e passa a se dedicar completamente aos filhos e a manter a família unida.
— Não sei o que fez a Monique se lembrar do Erasmo ator — comenta ele, num intervalo das filmagens do longa, previsto para estrear em 2018. — Tem até essa peruca, que passou a ser o astro do longa e virou uma piada interna. Quando eu cheguei, já estava tudo pronto, só entrei no personagem.
O último filme de Erasmo data de 1984, quando fez “O cavalinho azul”, adaptação para o cinema da peça de mesmo nome de Maria Clara Machado, sob direção de Eduardo Escorel. Antes, ele fizera “Os machões” (1972), sob direção de Reginaldo Farias, que lhe valeu o seu único prêmio que não é de música.
— O (diretor) Carlos Manga me chamava de “Orson Welles brasileiro”. Ele gostava muito de mim, fiz muita coisa com ele em TV. Inclusive um programa chamado “Ternurinha e Tremendão” (que estreou em 1968), no qual a gente interpretava uma historinha por semana — conta Erasmo.
Monique disse ter demorado para decidir o intérprete de José, porque ninguém parecia se encaixar na sua concepção do personagem. Foi quando ela lembrou dos filmes de Roberto Farias, que dirigiu o cantor e seu principal parceiro na música em “Roberto Carlos e o diamante cor de rosa” (1968) e “Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora” (1971):
— Eu achava uma loucura o Roberto ter feito esses filmes, com um nível de ação muito bom. Até escrevi um argumento com três amigos, incluindo meu irmão, para fazer um filme com Roberto e Erasmo que se passava em um navio. Sou fã do Erasmo em tudo. É uma pessoa que se jogou em várias artes, está fazendo até um livro de poesia. Como pai dessa família, ele ofereceria uma emoção a mais — diz a cineasta, que volta a fazer cinema dez anos depois de seu último longa, “Ó pai ó” (2007).
Erasmo lembrou até de uma de suas primeiras aparições na tela grande, em “Minha sogra é da polícia” (1958), de Aloísio de Carvalho, em que contracenava com Roberto Carlos, Carlos Imperial, Wilson Simonal e até Cauby Peixoto. Rodado em preto-e-branco, o filme trazia uma cena rockabilly e mostrava os artistas cantando rock:
— Eu apareço tocando saxofone — lembra, mostrando um trecho do filme no YouTube. — O Roberto está atrás, mas porque a gente ainda não era conhecido. Depois, ele ficou mais conhecido que eu e ganhou mais cartaz. Mas, naquela época, não.
Em “Paraíso perdido”, José dirige uma boate que tem como principal atração a música popular romântica. Quem sobe ao palco para cantar são seus filhos, netos e agregados, interpretados por Julio Andrade, Hermila Guedes, Seu Jorge, Jaloo, Julia Konrad, Malu Galli, Lee Taylor, Marjorie Estiano, Humberto Carrão e Felipe Abib.
— O José é um cara muito sofrido — define Erasmo. — Ele tem aquele desejo de manter a família unida, apesar de todas as coisas fora da ordem. É um sonhador, porque quer conquistar a felicidade a qualquer preço.
Principal cenário do filme, a boate é, nas palavras de Monique, um “lugar que parou no tempo”:
— No andar debaixo, eles cantam, e no andar de cima, eles vivem. É uma família marcada por perdas, desencontros. Mas muito amorosa, uma família salva pelo amor. Mesmo que falte um pai, uma mãe, se tiver amor em volta você consegue sobreviver bem — resume ela.
Numa inversão de expectativas, o Tremendão vai assumir seu lado brega. No filme, ele interpretará uma única canção, “Quem tudo quer nada tem”, composição de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, popularizada na voz de Anísio Silva:
— Foi uma sugestão minha. O Anísio Silva era um cara que eu ouvia muito na minha infância. Tinha outros, como o Altemar Dutra e o Orlando Dias. O Anísio era o que eu mais gostava, porque cantava com a voz mais colocadinha, mais suave. Nunca gostei desses caras que soltam a voz. Que me desculpem todos eles, mas é um gosto pessoal — diz o cantor.
Interpretar José e incorporar o brega não foi difícil, conta Erasmo, que também defende a autenticidade do gênero musical romântico.
— O simples é uma coisa muito difícil de fazer, senão já teriam feito o “Parabéns a você” há muito tempo. Essa filosofia simples dessa música me cativou muito. Forma de falar de amor muito certa, sincera, sem bajulação e sem frescura nenhuma. Ficou fácil pra mim porque é familiar. O artista popular lida com vários segmentos popularescos. E, como todos os artistas se respeitam, eu também faço parte disso. Me senti muito à vontade — garante.
Depois de “Paraíso perdido”, Erasmo volta à rotina de shows e parcerias na música. O cantor, cujos últimos discos lançados foram “Gigante gentil” (2014) e “Meus lados B” (2015), acaba de compor com Frejat “Dez segundos”, que fará parte da trilha do filme homônimo sobre a vida do boxeador Eder Jofre. Com Paulo Miklos, compôs “País elétrico” para o álbum novo do ex-Titã. E, com Wanderléa, a Ternurinha, ele compôs “A menina da felicidade”.
No escurinho com Erasmo:
Carreira como ator no cinema é curta e cheia de grandes intervalos
“Minha sogra é da polícia”, 1958. continua texto da legenda legenda continua texto da legenda RG Rio de Janeiro (RJ) 09/10/2012 "Clube do Rock" : Erasmo carlos, Roberto carlos e Carlos Imperial no filme "Minha sogra é da polícia", de 1958.
“Roberto Carlos e o diamante cor de rosa”, 1968. Com o Rei e a Ternurinha Wanderléa “Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora”, 1971. De novo ao lado do amigo Roberto
“Os machões”, 1972. Com o filme de Reginaldo Faria, o cantor ganhou seu único prêmio no cinema
“O cavalinho azul”, 1984. Na adaptação da peça de Maria Clara Machado, Erasmo vive o “caubói”

Fonte: O Globo 

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