Erasmo Carlos volta as telas de cinema em "Paraiso Perdido"


Caracterizado como dono de uma boate brega, Erasmo Carlos, 75 anos, sobe as escadas de um casarão no centro de São Paulo para começar o seu último dia de filmagens do longa “Paraíso perdido”. Com um terno preto, camisa brilhante, corrente de ouro e uma flor rosa na lapela, o cantor e compositor é recebido no set pela diretora Monique Gardenberg. José, seu personagem, não tem nada a ver com o Tremendão, roqueiro com fama de mau que se tornou sua persona no auge da Jovem Guarda, em meados dos anos 1960. Ele é um ex-professor de literatura que vê sua mulher desaparecer durante a ditadura e passa a se dedicar completamente aos filhos e a manter a família unida.
— Não sei o que fez a Monique se lembrar do Erasmo ator — comenta ele, num intervalo das filmagens do longa, previsto para estrear em 2018. — Tem até essa peruca, que passou a ser o astro do longa e virou uma piada interna. Quando eu cheguei, já estava tudo pronto, só entrei no personagem.
O último filme de Erasmo data de 1984, quando fez “O cavalinho azul”, adaptação para o cinema da peça de mesmo nome de Maria Clara Machado, sob direção de Eduardo Escorel. Antes, ele fizera “Os machões” (1972), sob direção de Reginaldo Farias, que lhe valeu o seu único prêmio que não é de música.
— O (diretor) Carlos Manga me chamava de “Orson Welles brasileiro”. Ele gostava muito de mim, fiz muita coisa com ele em TV. Inclusive um programa chamado “Ternurinha e Tremendão” (que estreou em 1968), no qual a gente interpretava uma historinha por semana — conta Erasmo.
Monique disse ter demorado para decidir o intérprete de José, porque ninguém parecia se encaixar na sua concepção do personagem. Foi quando ela lembrou dos filmes de Roberto Farias, que dirigiu o cantor e seu principal parceiro na música em “Roberto Carlos e o diamante cor de rosa” (1968) e “Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora” (1971):
— Eu achava uma loucura o Roberto ter feito esses filmes, com um nível de ação muito bom. Até escrevi um argumento com três amigos, incluindo meu irmão, para fazer um filme com Roberto e Erasmo que se passava em um navio. Sou fã do Erasmo em tudo. É uma pessoa que se jogou em várias artes, está fazendo até um livro de poesia. Como pai dessa família, ele ofereceria uma emoção a mais — diz a cineasta, que volta a fazer cinema dez anos depois de seu último longa, “Ó pai ó” (2007).
Erasmo lembrou até de uma de suas primeiras aparições na tela grande, em “Minha sogra é da polícia” (1958), de Aloísio de Carvalho, em que contracenava com Roberto Carlos, Carlos Imperial, Wilson Simonal e até Cauby Peixoto. Rodado em preto-e-branco, o filme trazia uma cena rockabilly e mostrava os artistas cantando rock:
— Eu apareço tocando saxofone — lembra, mostrando um trecho do filme no YouTube. — O Roberto está atrás, mas porque a gente ainda não era conhecido. Depois, ele ficou mais conhecido que eu e ganhou mais cartaz. Mas, naquela época, não.
Em “Paraíso perdido”, José dirige uma boate que tem como principal atração a música popular romântica. Quem sobe ao palco para cantar são seus filhos, netos e agregados, interpretados por Julio Andrade, Hermila Guedes, Seu Jorge, Jaloo, Julia Konrad, Malu Galli, Lee Taylor, Marjorie Estiano, Humberto Carrão e Felipe Abib.
— O José é um cara muito sofrido — define Erasmo. — Ele tem aquele desejo de manter a família unida, apesar de todas as coisas fora da ordem. É um sonhador, porque quer conquistar a felicidade a qualquer preço.
Principal cenário do filme, a boate é, nas palavras de Monique, um “lugar que parou no tempo”:
— No andar debaixo, eles cantam, e no andar de cima, eles vivem. É uma família marcada por perdas, desencontros. Mas muito amorosa, uma família salva pelo amor. Mesmo que falte um pai, uma mãe, se tiver amor em volta você consegue sobreviver bem — resume ela.
Numa inversão de expectativas, o Tremendão vai assumir seu lado brega. No filme, ele interpretará uma única canção, “Quem tudo quer nada tem”, composição de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, popularizada na voz de Anísio Silva:
— Foi uma sugestão minha. O Anísio Silva era um cara que eu ouvia muito na minha infância. Tinha outros, como o Altemar Dutra e o Orlando Dias. O Anísio era o que eu mais gostava, porque cantava com a voz mais colocadinha, mais suave. Nunca gostei desses caras que soltam a voz. Que me desculpem todos eles, mas é um gosto pessoal — diz o cantor.
Interpretar José e incorporar o brega não foi difícil, conta Erasmo, que também defende a autenticidade do gênero musical romântico.
— O simples é uma coisa muito difícil de fazer, senão já teriam feito o “Parabéns a você” há muito tempo. Essa filosofia simples dessa música me cativou muito. Forma de falar de amor muito certa, sincera, sem bajulação e sem frescura nenhuma. Ficou fácil pra mim porque é familiar. O artista popular lida com vários segmentos popularescos. E, como todos os artistas se respeitam, eu também faço parte disso. Me senti muito à vontade — garante.
Depois de “Paraíso perdido”, Erasmo volta à rotina de shows e parcerias na música. O cantor, cujos últimos discos lançados foram “Gigante gentil” (2014) e “Meus lados B” (2015), acaba de compor com Frejat “Dez segundos”, que fará parte da trilha do filme homônimo sobre a vida do boxeador Eder Jofre. Com Paulo Miklos, compôs “País elétrico” para o álbum novo do ex-Titã. E, com Wanderléa, a Ternurinha, ele compôs “A menina da felicidade”.
No escurinho com Erasmo:
Carreira como ator no cinema é curta e cheia de grandes intervalos
“Minha sogra é da polícia”, 1958. continua texto da legenda legenda continua texto da legenda RG Rio de Janeiro (RJ) 09/10/2012 "Clube do Rock" : Erasmo carlos, Roberto carlos e Carlos Imperial no filme "Minha sogra é da polícia", de 1958.
“Roberto Carlos e o diamante cor de rosa”, 1968. Com o Rei e a Ternurinha Wanderléa “Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora”, 1971. De novo ao lado do amigo Roberto
“Os machões”, 1972. Com o filme de Reginaldo Faria, o cantor ganhou seu único prêmio no cinema
“O cavalinho azul”, 1984. Na adaptação da peça de Maria Clara Machado, Erasmo vive o “caubói”

Fonte: O Globo 
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