Em política, a morte é anterior a si mesma. Começa muito antes. É um lento processo. O governo de Jair Bolsonaro começou a morrer. E o presidente não percebeu. Aquele governo que foi instalado em 1º de janeiro de 2019, acabou. A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, batendo a porta, teve o peso de uma lápide. Representou uma espécie de reinício. Neste dia 24 de abril de 2020 surgiu um outro governo em Brasília. O presidente é o mesmo, só que foi virado do avesso.

Ao se demitir, Moro como que explicou as razões que levaram Bolsonaro a exonerar o chefe da Polícia Federal, Maurício Valeixo, algo que tramava fazer desde agosto do ano passado. O presidente ficava fora de si quando lhe perguntavam por que queria trocar o comando da PF. Moro mostrou o que Bolsonaro tem por dentro: um desejo de aparelhar a PF, para anestesiar investigações. O agora ex-ministro disse a Bolsonaro que isso soaria como interferência política. E Bolsonaro respondeu, segundo Moro: É isso mesmo.

Ficou entendido que Bolsonaro deseja interferir em investigações que encostam nos seus filhos ou nele próprio, inclusive inquéritos que correm no Supremo Tribunal Federal. Com suas revelações, Moro forneceu material para o pedido de impeachment de Bolsonaro por crime de responsabilidade. Ele deixou Bolsonaro com uma aparência de sub-Lula ao dizer que nem os governos do PT, abalroados pelo mensalão e pelo petrolão, ousaram aparelhar a PF.

No governo Bolsonaro 2.0, inaugurado com a exposição de Moro, saiu de cena aquele presidente cordeiro que se apresentou na sucessão de 2018 como um político antissistema. Surgiu no palco um lobo sistêmico que devora a autonomia da PF e negocia com a alcateia corrupta do centrão a blindagem política do seu mandato. Na política, morrer significa, em última análise um pouco de vocação. Bolsonaro é vocacionado para o suicídio. Ao deixar o governo, Sergio Moro enviou a Bolsonaro uma coroa de flores. E jogou sobre o governo uma pá de cal.

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