A extrema pobreza, quadro em que a pessoa ingressa na indigência máxima, sem acesso ao requisito fundamental à sobrevivência humana – a alimentação-, cresce há cinco anos no Brasil, agravando-se, agora, nesse período da pandemia do coronavírus, fazendo os indicadores do IBGE atestar que algo em torno de 14 milhões de pessoas já se encontram nessa intolerável situação.

Essa realidade de miséria, que comporta pessoas com ganhos mensais de até 145 reais, ganhou força de 2015 para cá, resultante da elevação do desemprego, da interrupção do crescimento do país, do corte e da desaceleração de programas sociais de supressão e reparação das desigualdades, tornando recorde essa evolução da pobreza extrema no decorrer dos sete anos da série histórica do IBGE.

O levantamento do IBGE, relativo a 2019, ainda mostrou que todas as regiões do Brasil tiveram piora no índice de pobreza - Foto: Cristiano Mariz/VEJA 

Os dados do instituto de estatística brasileiro revelam que a miséria atinge principalmente os estados do Norte e Nordeste do país, com foco especial na população preta e parda, sem instrução ou com formação fundamental incompleta. E mesmo os filhos dessas famílias que queiram diferenciar-se, superando a condição de estudos dos pais, acabam paralisados pela limitação econômica familiar, o que expressa um retrato fiel do tamanho do fosso de desigualdade que impera e se avoluma no Brasil.

A falta de renda acaba empurrando os estudantes desse estrato para a evasão escolar. Entre ir à escola ou trabalhar para evitar que a família passe fome, a segunda opção é a mais óbvia. Segundo o IBGE, 11,8% dos jovens mais pobres abandonaram a escola sem concluir o ensino médio no ano passado. Trata-se de um índice oito vezes maior que o dos jovens ricos.

O levantamento do IBGE, relativo a 2019, ainda mostrou que todas as regiões do Brasil tiveram piora no índice de pobreza. Embora no Nordeste a situação fosse mais grave, com 55% da população sendo considerada extremamente pobre- um aumento de 10,8% de 2016 para 2017 -, o Sudeste, considerada a região mais rica do Brasil, também sofreu com o avanço da pobreza, com um acréscimo de 13,8%.

Vê-se, daí, que o Brasil está num ciclo vicioso e pernicioso infindável, indicando o acúmulo de miséria sobre miséria, sem que haja nenhum esforço nacional para reverter, ou ao menos atenuar, essa gritante tragédia. Tal quadro é de maneira tão aguda, que até mesmo o Fundo Mionetário Internacional, por sua diretora-geral, Kristalina Georgieva, diante da perspectiva de que a crise do coronavírus pode trazer até 100 milhões de pessoas a condições de extrema pobreza, alerta que, à luz dessa emergência, as autoridades “devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para promover um crescimento mais inclusivo, sendo necessárias reformas e investimentos para melhorar significativamente as perspectivas econômicas dos mais frágeis”.

Vê-se, de modo objetivo, que até mesmo o FMI, histórico fomentador do capital pelo capital - que na prática resultou na riqueza concentrada nas mãos de poucos, países, pessoas jurídicas e físicas-, finalmente se assusta com o que está ocorrendo no mundo, no Brasil em especial. Não dá mais para fechar os olhos para esse perigoso e desumano fosso de distanciamento entre ricos e miseráveis.

Vejam bem: não é a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil( CNBB), com as suas históricas “campanhas da fraternidade”, quem prega uma mudança severa de postura diante do crescimento da miséria. Quem dispara o sinal vermelho é Kristalina Georgieva, a poderosa diretora do Fundo mundial dos ricos:

“É urgente mais investimentos em saúde, no fortalecimento das redes de assistência social e no maior acesso a uma educação de qualidade. Em médio prazo, haverá espaço para melhorar a eficiência dos gastos públicos. Também há espaço para uma reforma tributária: por exemplo, algumas economias avançadas e emergentes poderiam aumentar os impostos sobre as rendas mais altas.”

Há alguma luz no fim do poço?

À advertência do FMI sobre o risco de milhões de novos miseráveis pelo mundo, soma-se o alerta da OCDE (Organização para a Cooperação Econômica Europeia ) e às estimativas cautelosas do Fed (Federal Reserve) sobre o fracasso no crescimento das economias e, especialmente, sobre a degradação do mercado de trabalho.

Quando as injustiças são presentes e relevantes- como sempre ocorrem ao Brasil-, refletidas na desigualdade alarmante, criando distâncias inaceitáveis entre ricos e muito pobres, vê-se que a fraternidade passa distância e as liberdades individuais são mera ficção.

É urgente que se tenha a coragem de tratar a pobreza e a miséria como uma violação, por si só, de vários direitos humanos, com especial atenção para o da liberdade, na clara compreensão de que não pode existir livre arbítrio quando não se tem condição de exercitar a condição mínima de sobrevivência humana, que é a de alimentar-se.

Não é justo e aceitável que a riqueza abundante na face da terra permaneça retida nas mãos de alguns, e não chegue, na forma honesta e justa, para, ao menos, dar de comer a quem tem fome. Fonte: Meio Norte/ Texto: José Osmando de Araújo – Jornalista

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